Nikolas Ferreira
Câmara dos Deputados


A megaoperação da Polícia Federal (PF) contra o crime organizado, deflagrada neste mês, trouxe de volta ao noticiário um episódio que movimentou intensamente as redes sociais em janeiro de 2025: a divulgação, pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL), de uma fake news sobre a criação de impostos no Pix pelo governo Lula (PT).

Segundo a investigação, a desinformação, além de provocar forte desgaste político ao Palácio do Planalto, acabou beneficiando indiretamente os interesses do Primeiro Comando da Capital (PCC), ao enfraquecer medidas de fiscalização contra operações financeiras suspeitas.

A narrativa que virou crise

No dia 12 de janeiro, Nikolas publicou um vídeo em suas redes sociais afirmando que o governo Lula preparava uma cobrança de impostos sobre transferências instantâneas.

A informação era falsa, mas ganhou enorme repercussão. Em poucas horas, empresários e comerciantes começaram a anunciar boicote ao Pix.


A pressão obrigou o governo a suspender a instrução normativa que ampliaria a fiscalização sobre fintechs e arranjos de pagamento, mesmo diante de alertas internos da Receita Federal sobre os riscos de lavagem de dinheiro e evasão fiscal.

O então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, foi a público desmentir a tese, mas a desinformação já havia ganhado vida própria. Para o secretário especial da Receita, Robinson Barreirinhas, o episódio representou “o maior ataque de fake news da história do órgão”.

O peso político sobre Nikolas Ferreira

A estratégia, que em outros momentos serviu para impulsionar lideranças bolsonaristas, desta vez teve efeito reverso. Levantamento apontou que críticas a Nikolas dominaram as redes, com curtidas e compartilhamentos em postagens contrárias ao deputado mineiro.  

Para analistas políticos, a associação de Nikolas a um episódio que favoreceu o PCC fragilizou sua imagem e acendeu dúvidas sobre sua viabilidade como herdeiro político do ex-presidente.

O pedido de investigação

Diante do caso, o deputado Rogério Correia (PT) protocolou na Procuradoria da República um pedido para que Nikolas seja investigado por sua conduta.

O argumento é que, ao difundir desinformação que prejudicou uma política pública de combate a crimes financeiros, o parlamentar ultrapassou os limites do debate político e pode ter contribuído para o enfraquecimento institucional.

Juristas avaliam que a iniciativa abre um precedente para que parlamentares sejam responsabilizados por propagação de fake news que resultem em prejuízos concretos ao Estado ou à sociedade.

A resposta da Receita

Para evitar novos desgastes, a Receita Federal prepara uma nova versão da instrução normativa, agora mais curta e clara, com apenas quatro artigos. O texto fará referência direta à Lei do Sistema de Pagamentos Brasileiro, reforçando que não há criação de novos deveres, mas apenas a reafirmação de regras já existentes há duas décadas.

“O objetivo é não deixar margem para novas ondas de mentiras” , afirmou a Receita em nota.

A medida revela uma mudança de postura: em vez de apenas reagir a boatos, as instituições buscam se blindar contra narrativas falsas.

Fake news como método político

O episódio de Nikolas Ferreira se insere em um fenômeno mais amplo: o uso sistemático da desinformação pela extrema direita brasileira desde a ascensão de Jair Bolsonaro em 2018. Narrativas falsas sobre urnas eletrônicas, vacinas e políticas econômicas foram centrais na estratégia digital bolsonarista, permitindo mobilizar bases de apoio e deslegitimar adversários.

Um ponto de inflexão

O caso pode representar um divisor de águas no debate sobre desinformação no Brasil. Para a PF, trata-se de um exemplo de como fake news não apenas distorcem a opinião pública, mas também interferem em políticas de Estado, com impacto direto no combate ao crime organizado.

Já para o campo político, a crise expõe a dificuldade da extrema direita em manter a mesma eficácia digital de anos anteriores. A implosão do bolsonarismo, somada às investigações judiciais em curso, deixou lideranças como Nikolas mais vulneráveis a críticas e responsabilizações.


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