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A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva decidiu reduzir a exposição da primeira-dama Janja da Silva no segundo turno. A mudança começou a ganhar forma nos bastidores depois de uma reunião da coordenação política em que integrantes da campanha fizeram críticas à atuação da primeira-dama e defenderam uma presença mais ativa do vice-presidente Geraldo Alckmin.

A ex-senadora Kátia Abreu foi uma das vozes que defenderam publicamente o afastamento de Janja da linha de frente da campanha. A avaliação apresentada no encontro, segundo participantes, é que algumas manifestações da primeira-dama estariam produzindo desgaste político em vez de contribuir para a estratégia eleitoral de Lula.

O debate revela uma mudança de orientação para a reta final da eleição: menos exposição individual de Janja e mais espaço para Alckmin, além da tentativa de ampliar a interlocução com partidos, empresários e setores que estão fora da base tradicional do PT.

“Piá de bosta” vira símbolo do desgaste

Um dos episódios que mais chamou a atenção durante a reunião foi a utilização da expressão “piá de bosta” por Janja para se referir ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). A primeira-dama usou o termo inicialmente durante um ato de campanha em Salvador, em 29 de setembro. Depois, repetiu a expressão durante uma caminhada em Belo Horizonte, em 2 de outubro, quando também chamou o deputado de “piá mentiroso”.


Segundo os relatos apresentados na reunião, o episódio foi citado como exemplo de uma exposição pública que parte da coordenação considera contraproducente para a campanha presidencial.

Outro integrante relatou que, durante uma agenda em Santa Catarina, Janja teria mencionado a família Bolsonaro 17 vezes. A avaliação apresentada foi de que a insistência no adversário teria provocado desconforto entre organizadores locais.

Bastidores revelam incômodo com a equipe

O desconforto relatado na reunião não estaria restrito à atuação pública da primeira-dama. Participantes também apresentaram reclamações envolvendo integrantes da equipe de Janja. Segundo os relatos, houve questionamentos sobre a maneira como membros da assessoria se relacionam com autoridades locais, organizadores de eventos e servidores do Gabinete de Segurança Institucional.

As críticas, entretanto, foram apresentadas por participantes da reunião e não representam uma posição oficial do presidente Lula ou da coordenação da campanha.

Alckmin aparece como contraponto

No mesmo encontro em que Janja foi questionada, Geraldo Alckmin ganhou espaço na discussão sobre a estratégia eleitoral. A proposta de ampliar a participação do vice-presidente teria sido recebida com aplausos. A aposta é que Alckmin possa ocupar um espaço político diferente daquele tradicionalmente associado ao PT, especialmente na conversa com empresários, setores de centro e eleitores que não fazem parte da base histórica do partido.

A movimentação também coincide com a estratégia defendida por Edinho Silva, presidente nacional do PT e coordenador político da campanha, de ampliar o comando político para o segundo turno.  Camilo Santana, Rui Costa e Jaques Wagner estão entre os nomes que podem ganhar maior participação na coordenação.

Comunicação entra na mira

A crise de estratégia não se limita à participação de Janja. A comunicação da campanha também foi discutida internamente. Integrantes avaliaram que o primeiro turno terminou sem que o governo conseguisse apresentar de maneira suficientemente clara suas realizações.

A atuação do ministro Sidônio Palmeira e do marqueteiro Raul Rabelo passou a ser alvo de questionamentos dentro da campanha, especialmente diante da necessidade de modificar a comunicação na reta final. A orientação defendida internamente é ampliar a integração entre as equipes e reduzir conflitos de estratégia.

Edinho amplia o comando político

A movimentação também indica uma mudança no modelo de comando da campanha. Durante a reunião, Edinho Silva deixou a sala por um período considerado longo por alguns participantes. As intervenções chegaram a ser interrompidas até o retorno do dirigente petista.

Apesar do episódio, Edinho afirmou posteriormente que não pretende promover uma troca dos integrantes da coordenação. A estratégia será ampliar o grupo e incorporar lideranças com capacidade de articulação regional e diálogo com diferentes setores da sociedade.

Reta final exige mudança de estratégia

A reorganização ocorre depois de um primeiro turno apertado, no qual Flávio Bolsonaro terminou com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%.

A partir desse cenário, a campanha petista entra no segundo turno tentando recalibrar sua estratégia política: ampliar alianças, fortalecer a presença territorial, aproximar Alckmin de setores externos ao PT e reduzir exposições consideradas capazes de gerar conflitos desnecessários.


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