Romeu Zema
Agência Minas
Romeu Zema






Durante uma homenagem recebida na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), Ricardo Zema, fundador do Grupo Zema e pai do Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais e candidato à Presidência da República (NOVO), relembrou episódios do início de sua trajetória empresarial. Entre os relatos, descreveu uma estratégia utilizada para postergar o pagamento de dívidas.

O empresário relatou que preenchia deliberadamente cheques destinados ao pagamento de fornecedores com erros, para que fossem devolvidos pelos bancos, criando um prazo adicional para o pagamento dos débitos. Nesse intervalo, segundo o relato, os recursos permaneciam aplicados em instituições financeiras, permitindo à empresa obter rendimentos de até 40% ao mês, enquanto postergava a quitação dos compromissos.

A prática teria ocorrido em 1966, período em que a empresa utilizava o prazo adicional para manter os recursos aplicados antes de honrar os débitos.

No relato de Zema, a conduta permitia obter prazo para levantar recursos, realizar investimentos em bancos, posteriormente, quitar as dívidas. A façanha o ajudou a construir um patrimônio estimado em mais de R$ 6 bilhões. O Grupo Zema reúne empresas dos setores de distribuição de combustíveis, varejo de eletrodomésticos e instituições financeiras.

“Tudo meu começou assim. Nesse mesmo mês (março de 1966) de , comprei uma autopeças em Ituiutaba (MG). Tudo que tenho hoje saiu desse negócio, que começou a se desenvolver. Depois comprei o segundo posto de gasolina. Daí a seis meses, comprei o Posto Zema 3 e um posto de Uberaba (MG). O negócio começou a se desenvolver. Começaram a surgir outros negócios. Hoje, nossos negócios principais são combustíveis e eletrodomésticos," contou Zema 

O líder do clã  Zema, disse que havia comprado um lote de peças sem dispor de dinheiro suficiente para quitar a operação. Para ganhar tempo, emitiu ordem de pagamento com divergência proposital entre o valor numérico e o valor escrito por extenso para o banco devolver o "cheque boi". 

Os fornecedores de outros estados precisavam aguardar semanas até retornar a Araxá, no interior de Minas Gerais, para receber o pagamento.

"Exemplo de gestão"

Romeu Zema, quando governador de Minas Gerais e agora candidato à Presidência da República, costuma apresentar sua experiência à frente do Grupo Zema como referência para o modelo de gestão que defende para a administração pública. Em discursos e manifestações públicas, Zema destaca práticas adotadas no setor privado que, segundo ele, podem ser aplicadas ao poder público, especialmente nas áreas de controle de despesas, gestão de recursos, redução de custos e busca por eficiência e resultados.

A defesa desse modelo empresarial de administração pública faz parte do discurso político de Zema desde sua chegada ao governo de Minas. Ao assumir o cargo, em 2019, ele afirmou que havia deixado a direção do Grupo Zema para se dedicar à gestão do Estado e defendeu um “modelo de gestão diferente e mais eficiente igual ao Grupo Zema ”.

Um erro que, segundo o próprio empresário, não foi acidental

O ponto mais delicado do relato está justamente na natureza da divergência. Pela narrativa apresentada por Zema, o preenchimento diferente não ocorreu simplesmente por engano. A estratégia permitiria que o cheque fosse devolvido caso ele não conseguisse levantar o dinheiro necessário dentro do prazo.

Ele contou que tinha mais de 30 dias para conseguir os recursos. Nesse período, vendeu parte das mercadorias e reuniu o dinheiro para honrar o compromisso. Também afirmou ter avisado o gerente do banco sobre a situação.

Em 24 de abril de 2014, durante comemorações dos 90 anos do Grupo Zema na ALMG, Ricardo Zema, relatou aos parlamentares episódios dos primeiros anos de sua trajetória empresarial. Entre as histórias contadas, ele mencionou uma estratégia  “Lei de Gerson" para enfrentar dificuldades financeiras e ganhar prazo para honrar compromissos.

No relato de Zema, a prática consistia em preencher deliberadamente cheques com erros, fazendo com que fossem devolvidos pelos bancos. Com isso, afirmou, conseguia mais tempo para levantar recursos, investir nos negócios e posteriormente quitar as dívidas. O empresário apresentou a estratégia como uma alternativa adotada em um período de dificuldades financeiras.

A homenagem foi proposta pelo deputado João Bosco (PSD), conterrâneo de Ricardo Zema . Durante o discurso na ALMG, o fundador do grupo também contou que a primeira operação comercial da empresa foi a compra de um lote de peças de ferro-velho e um posto.

“Mandei o cheque com o extenso errado. Coloquei um milhão, quarenta e quatro mil, e quarenta e quatro mil (cruzeiros). Eu tinha 30 dias de prazo para pagar o cheque. Se eu não conseguisse pagar o cheque, ele seria devolvido em razão do extenso errado e daria tempo de arranjar o dinheiro”, declarou, sendo aplaudido pelo público presente.

Notas taquigráficas, Zema explicou como preenchia os cheques

Segundo o relato de Zema, os cheques eram preenchidos com erros no valor por extenso, o que lhe garantia mais de 30 dias até que os fornecedores de outros estados identificassem a devolução dos documentos. Nesse intervalo, afirmou, conseguia aplicar os recursos no mercado financeiro. As operações ocorreram, em um período de inflação elevada, quando os juros chegavam a 40% ao mês.

“Deu certo: levei 90 dias para pagar o cheque. Tudo que tenho começou desse negócio. Dessa pequena quantidade de peças com a qual fiquei, comprei uma fábrica de cromagem que montei depois no fundo de minha casa”, revelou, segundo os registros oficiais da ALMG.

A declaração de Ricardo Zema atribui àquela primeira operação um papel importante no início de sua trajetória empresarial. Segundo o pai do ex-governador, quando assumiu a empresa, em 1964, o negócio estava profundamente endividado. De acordo com Zema, as dívidas correspondiam a cinco vezes o patrimônio da empresa. Havia dez funcionários, contando com ele, e a companhia não possuía imóveis nem veículos.

 A trajetória narrada por Zema mostra uma sequência de operações destinadas a gerar dinheiro e ampliar os negócios. Zema passou a utilizar um caminhão para realizar transporte, negociou a aquisição de estoque de peças e vendeu rapidamente mercadorias para conseguir cumprir compromissos financeiros.


O Grupo Zema foi administrado por Romeu Zema até ele ser eleito governador de Minas Gerais, em 2018.  O grupo reúne empresas dos setores de eletrodomésticos, distribuição de combustíveis e instituições financeiros, que constituem a base de suas atividades

Como foi criado a expressão do cheque boi

“Cheque boi” era uma expressão utilizada no Brasil até meados dos anos 2000 para se referir, de forma popular, a um cheque que não era compensado pelo banco. A devolução podia ocorrer por diferentes motivos, como falta de saldo na conta, preenchimento incorreto ou bloqueio.

A expressão fazia referência à reação de quem recebia o cheque e, ao descobrir que o pagamento não havia sido efetuado, ficava indignado e  “berrava” de raiva. Na época,  a ordem de pagamento ainda era uma das principais formas de pagamento utilizadas nas transações comerciais e pessoais.

Com a evolução dos meios eletrônicos de pagamento, os cheques perderam espaço e foram gradualmente substituídos por cartões de crédito e débito, transferências bancárias e, mais recentemente, pelo Pix.

Levar vantagem em tudo

A chamada Lei de Gerson foi usada por antropólogos e psicanalistas para definir o caráter de parte da sociedade brasileira que tenta levar vantagem em tudo sem se importar com princípios éticos e morais. Esse termo foi citado pela primeira vez na década de 1980 e teve origem em uma propaganda veiculada em 1976, protagonizada pelo jogador Gérson, meia da seleção brasileira campeã mundial na Copa de 1970. Na propaganda de um cigarro Vila Rica, o jogador afirmava: "Gosto de levar vantagem em tudo. Leve você também vantagem, fume Vila Rica".

Tempos depois, Gérson se arrependeu de ter participado da propaganda, pois a expressão passou a ser associada a comportamentos antiéticos no Brasil. Apesar do pedido de desculpas, o jogador ficou estigmatizado devido à chamada "Lei de Gerson".

O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, foi procurado por meio de sua assessoria de comunicação para se manifestar sobre as denúncias apresentadas na matéria. Até o momento, porém, não houve posicionamento.

O espaço permanece aberto para manifestação, caso sua assessoria queiram apresentar esclarecimentos sobre os fatos. 

    Compartilhar
    Comentários
    Clique aqui e deixe seu comentário!

    Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

    Mais Recentes