
Em busca de fôlego para “carregar o andor” de uma pré-campanha ainda instável, Mateus Simões (PSD) recorreu ao publicitário Paulo Vasconcelos na disputa pelo governo de Minas Gerais. Com passagens por campanhas vitoriosas de Aécio Neves (PSDB), o marqueteiro tenta tirar o projeto da estagnação e dar viabilidade a uma candidatura que ainda não se firmou. A contratação do publicitário é vista, nos bastidores, como uma tentativa dar vida a um projeto político que ainda não demonstrou consistência.
Pesquisa divulgada nesta terça-feira pelo instituto Genial/Quaest indica que a estratégia do governador Mateus Simões de percorrer o interior de Minas, incluindo a iniciativa de transferir simbolicamente a capital para 16 cidades, não se refletiu em crescimento nas intenções de voto. O atual chefe do Executivo aparece apenas na quinta colocação, com cerca de 4% da preferência, empatado com o pouco conhecido Ben Mendes (Missão) também 4%.
À frente estão o senador Cleitinho Azevedo, com aproximadamente 30%, seguido por Alexandre Kalil, com 14%, e Rodrigo Pacheco, que soma 8%, evidenciando um cenário ainda desafiador para a consolidação política do governador.
Capital político que não se transfere
O ex-governador Romeu Zema (Novo), reeleito em 2022 no primeiro turno com ampla votação, não tem conseguido carregar o "andor". Embora tenha deixado seu afilhado Simões à frente do governo, com a continuidade de ações bem avaliadas no estado, o desempenho nas pesquisas não reflete esse legado. O herdeiro político ainda encontra dificuldades para se firmar junto ao eleitorado, indicando que a força eleitoral de Zema pode ser mais pessoal..
A lição de Arraes
A situação remete à máxima do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes: “Não importa quem é o andor, o que importa é carregar o santo”. A ideia de transferência de carisma, no entanto, tem limites históricos. Em 1998, o próprio Arraes não conseguiu se reeleger, apesar do capital político acumulado, diante do desgaste administrativo e da articulação da oposição.
Máquina pública sem conversão em votos
Iniciativas adotadas pelo governador também não têm surtido o efeito esperado. A transferência simbólica da capital para diferentes regiões do estado, por exemplo, buscou ampliar a presença no interior e gerar visibilidade, mas não se refletiu, até agora, em avanço nas pesquisas. O
Desde que assumiu o comando do estado após a saída de Zema, no fim de março, Simões ainda não conseguiu converter a máquina pública em capital político. A troca frequente de marqueteiros, incluindo nomes como Alberto Lage é interpretada por analistas como sinal de desorganização. Em campanhas eleitorais, mudanças constantes de estratégia costumam indicar problemas que vão além da comunicação.
Identidade em construção (e confusão)
Na tentativa de construir uma identidade própria, Simões oscila entre referências distintas. De um lado, ensaia um estilo mais popular, descontraído e bem-humorado, associado ao senador Cleitinho Azevedo; de outro, busca se aproximar do perfil técnico, formal e institucional do ex-governador Antonio Anastasia. Até aqui, a combinação soa artificial e não conseguiu consolidar uma imagem política nítida, o que dificulta a identificação por parte do eleitorado.
Tom combativo e ruído institucional
Nas redes sociais, o governador frequentemente adota um tom mais Bolsonaro , por vezes tensionando relações institucionais, inclusive em temas que envolvem decisões judiciais e críticas políticas. Ao mesmo tempo, tenta sustentar a imagem de operador do direito e profundo conhecedor das instituições. A convivência desses dois registros, no entanto, tem sido percebida como inconsistente.
Isolamento político crescente
O cenário político ao redor também apresenta desafios. Relatos de afastamento de aliados, dificuldades de interlocução com prefeitos e parlamentares, além de atritos com diferentes setores, indicam obstáculos na articulação política.
Aliado de primeira hora, o ex-secretário e pré-candidato ao Senado Marcelo Aro (PP) passou a dar sinais de distanciamento do grupo do governador Mateus Simões, chegando a ameaçar deixar a coligação de reeleição. Nos bastidores, o movimento é interpretado como um ensaio de reaproximação com o senador Cleitinho Azevedo, líder nas pesquisas, indicando possível realinhamento político
Comparação inevitável
O estilo de Simões é frequentemente comparado ao do ex-governador Aécio Neves durante seu período à frente do governo mineiro, marcado por centralização e baixa tolerância a críticas. A diferença, apontam analistas, está no contexto: Aécio combinava esse perfil com elevados índices de aprovação superiores a 80% em determinados momentos, o que lhe permitiu eleger seu sucessor, Anastasia, em 2010, e se projetar nacionalmente. Que disputou e perdeu a eleição presidencial de 2014 para Dilma Rousseff.
