Da idolatria à crítica: a rapidez com que o futebol transforma heróis em culpados. No futebol brasileiro, a distância entre a consagração e a condenação costuma ser de apenas noventa minutos. Técnicos, jogadores e dirigentes são elevados à condição de salvadores após uma vitória e, na derrota seguinte, passam a ser tratados como os únicos responsáveis pelo fracasso.
O treinador Carlo Ancelotti vive exatamente esse cenário. Apresentado como um dos maiores treinadores da história do futebol mundial, rapidamente passou a ser alvo de críticas depois da eliminação da Seleção Brasileira diante da Noruega por 2 a 1. O mesmo profissional que, há poucos meses, era celebrado como a solução para os problemas da Seleção passou a ser questionado por torcedores e parte da imprensa.
Uma homenagem em meio às críticas
Enquanto enfrenta críticas pelo desempenho esportivo, Carlo Ancelotti poderá receber o título de cidadão honorário da República Federativa do Brasil. A iniciativa foi apresentada pelo deputado federal Eduardo Bismarck (PV-CE), por meio de um projeto de resolução que reconhece a trajetória profissional do treinador, seu prestígio internacional e sua contribuição ao futebol brasileiro à frente da Seleção. Caso aprovada, a homenagem será entregue em sessão solene da Câmara dos Deputados.
É importante destacar que esse título possui caráter exclusivamente honorífico. Ele não concede nacionalidade brasileira, nem altera direitos civis, eleitorais ou migratórios do homenageado.
Currículo incontestável
Independentemente dos resultados obtidos até agora com a Seleção Brasileira, o currículo de Ancelotti permanece entre os mais vitoriosos da história do futebol.
Ele é o treinador com o maior número de títulos da UEFA Champions League, conquistando cinco troféus, além de ser o único técnico campeão das cinco principais ligas nacionais da Europa: Itália, Inglaterra, França, Alemanha e Espanha.
Sua carreira inclui dezenas de conquistas nacionais e internacionais, consolidando seu nome entre os maiores treinadores de todos os tempos.
O imediatismo do futebol brasileiro
A proposta de homenagem reacende uma reflexão importante: até que ponto o Brasil avalia profissionais pelo conjunto de sua trajetória ou apenas pelo resultado mais recente.
No futebol, o imediatismo frequentemente supera a análise racional. Um técnico pode acumular décadas de conquistas, mas uma eliminação é suficiente para colocar toda sua competência em dúvida.
Esse comportamento não é exclusivo da torcida. Muitas vezes, dirigentes, comentaristas e até agentes públicos acompanham esse movimento, alternando elogios e críticas conforme o placar do momento.
Política e futebol: uma combinação delicada
A iniciativa da Câmara dos Deputados também provoca debate sobre a concessão de homenagens oficiais a personalidades ligadas ao esporte enquanto seus trabalhos ainda estão em andamento.
Para alguns, reconhecer uma carreira internacional excepcional é plenamente justificável. Para outros, seria mais prudente aguardar a conclusão do trabalho desenvolvido na Seleção Brasileira antes da concessão de uma honraria nacional.
Mais reflexão, menos paixão
O futebol desperta emoções intensas, mas decisões institucionais tendem a ser mais consistentes quando se baseiam na trajetória completa de uma personalidade, e não apenas em resultados recentes.

