Rodrigo Pacheco
Agência; Senado
Rodrigo Pacheco


O que até poucos anos atrás soaria como delírio político começa a ganhar contornos concretos no tabuleiro mineiro. Em nome da sobrevivência eleitoral e do controle de estruturas partidárias, antigas fronteiras ideológicas são dissolvidas sem constrangimento. O caso mais emblemático é o do senador Rodrigo Pacheco, indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como seu nome preferido para a disputa pelo governo de Minas Gerais.

Para viabilizar o projeto, Pacheco acertou sua saída do PSD rumo ao União Brasil com um objetivo claro: assumir o controle da legenda no estado e montar, sem intermediários, o próprio palanque. O movimento abre espaço para uma articulação que, até recentemente, seria considerada politicamente radioativa: colocar Lula, PT, o ex-governador Aécio Neves e o ex-deputado Eduardo Cunha no mesmo palanque. Cunha, atualmente sem partido, transferiu seu domicílio eleitoral para MG e pretende disputar uma vaga de deputado federal. 

Vai assumir a presidência do União Brasil em Minas Gerais o deputado federal Rodrigo de Castro, filho de Danilo de Castro, ex-braço direito de Aécio Neves nos governos do PSDB. Entre 2003 e 2015, Danilo ocupou a Secretaria de Governo do Estado e foi um dos principais articuladores políticos da gestão tucana.

O palanque que reescreve a história

A estratégia de Pacheco passa por reunir personagens que, por décadas, simbolizaram projetos antagônicos de poder em Minas e no Brasil. De um lado, o Partido dos Trabalhadores; de outro, Aécio Neves, ex-governador e principal liderança do PSDB mineiro. O que antes era antagonismo virou variável de negociação.

Aécio surge como peça-chave desse arranjo. Pode ser candidato a vice-governador ou disputar uma das duas vagas ao Senado. O cálculo é frio: peso político, recall eleitoral e capilaridade partidária ainda contam — mesmo que o custo simbólico seja elevado.

Um palanque sem memória

Aécio Neves construiu sua trajetória como antagonista histórico do PT. Foi governador, presidenciável e símbolo do antipetismo. Hoje, reaparece como possível vice ou candidato ao Senado em uma chapa patrocinada, direta ou indiretamente, por Lula. 

O PT, por sua vez, aceita flertar com esse arranjo após anos de enfrentamento público com o grupo tucano. O recado ao eleitor é direto: princípios tornam-se negociáveis quando o objetivo é derrotar Romeu Zema e interromper o ciclo do Novo em Minas.


A conversa com Lula e o sinal verde esperado

Antes de oficializar sua candidatura,  Pacheco aguarda uma conversa direta com Lula. O encontro é tratado como decisivo para liberar o senador a iniciar, sem ambiguidades, as negociações para formar uma chapa de oposição ao governador Romeu Zema (Novo), que deve lançar como sucessor o atual vice, Mateus Simões (PSD).

O apoio do presidente é visto como ativo central. Sem ele, a engenharia política perde tração; com ele, alianças improváveis deixam de ser tabu.

MDB, PSDB e a política do possível

Além do PT, Pacheco busca atrair o MDB, comandado em Minas por Newton Cardoso Júnior. O desenho é clássico do chamado “centro ampliado”, onde divergências históricas são suspensas em nome de um objetivo comum: derrotar o projeto de Zema.

Nesse cenário, instala-se uma disputa silenciosa — e feroz — por espaço na chapa. Há uma vaga de vice-governador e duas cadeiras ao Senado em jogo. Todos querem sentar à mesa; poucos terão lugar.

Aécio, o tempo e a indefinição calculada

Aécio Neves repete que não pretende disputar a reeleição para deputado federal, mas evita cravar qualquer decisão antes de abril. A indefinição não é fraqueza; é método. Manter-se como variável aberta amplia seu poder de barganha em um tabuleiro em constante rearranjo.

Enquanto isso, Pacheco observa, negocia e posterga decisões definitivas — ciente de que, em Minas, alianças mal costuradas costumam cobrar preço alto.

O PT como aliado — ou obstáculo

Embora seja o nome preferido de Lula, Pacheco não esconde que não abre mão de montar o próprio palanque. Nesse contexto, não está descartada a formação de uma chapa sem um candidato do PT. A hipótese escancara a fragilidade da aliança e o grau de pragmatismo envolvido.

O PT mineiro, por sua vez, tem projeto próprio: eleger a prefeita de Contagem, Marília Campos, ao Senado. A ambição petista colide diretamente com os planos de Pacheco e de Aécio, tornando a convivência tudo menos pacífica.

Minas como laboratório do pragmatismo extremo

A movimentação em torno de Rodrigo Pacheco transforma Minas em laboratório da política sem verniz. O que importa não é coerência, mas viabilidade. Não é afinidade programática, mas cálculo eleitoral.

A história mineira já assistiu a movimentos semelhantes

Nas eleições de 1986, Itamar Franco (PL) e Newton Cardoso (PMDB) protagonizaram uma das disputas mais acirradas e agressivas da história política de Minas Gerais. O pleito, vencido por Newton Cardoso, ficou marcado por ataques pessoais, acusações de corrupção e insinuações envolvendo a vida privada dos candidatos — um nível de confronto pouco comum até então na política mineira.

Anos depois, em 1998, os antigos adversários surpreenderam o Estado ao se unirem contra um objetivo comum: impedir a reeleição do então governador Eduardo Azeredo (PSDB). Itamar Franco (PMDB) lançou-se candidato ao governo, tendo Newton Cardoso como vice na chapa. A aliança improvável venceu a eleição e levou Itamar ao Palácio da Liberdade (sede do governo de Minas) .

A trégua, no entanto, durou pouco. Meses após a posse, as divergências políticas e pessoais ressurgiram, a relação se deteriorou e os dois voltaram a se tornar adversários, reeditando uma rivalidade que marcou a política mineira por mais de uma década.

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