
O senador Ciro Nogueira (PP), ex-ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro e autoproclamado “o maior dos líderes bolsonaristas”, iniciou uma guinada política movida menos por convicção e mais por instinto de sobrevivência. Diante da perspectiva concreta de derrota nas urnas, o presidente nacional do Progressistas decidiu recorrer justamente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — alvo preferencial de seus ataques ao longo de 2025.
No Piauí, o cenário é tratado como crítico até por aliados. Nas pesquisas, Nogueira aparece em quarto lugar de preferência para o cargo de senador. O risco de não reeleição deixou de ser hipótese e passou a orientar decisões estratégicas do senador, que agora trabalha para reduzir danos e ampliar margens de negociação.
Reunião fora da agenda e rendição silenciosa
Em dezembro, Ciro procurou Lula em um encontro fora da agenda oficial, na Granja do Torto, numa cena impensável meses atrás. A reunião contou com a presença do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), e foi organizada a pedido do próprio senador do PP.
Desde então, o discurso mudou. O parlamentar interrompeu abruptamente a ofensiva digital contra o Planalto e adotou um tom subitamente moderado — movimento interpretado em Brasília como rendição tática e tentativa de reconstruir pontes queimadas durante o bolsonarismo.
O fim da artilharia digital
Até novembro, Ciro Nogueira acumulava ao menos 94 publicações com críticas diretas ou indiretas ao governo Lula e ao PT. A última ocorreu em 18 de novembro, quando afirmou que “a conta do governo estava no vermelho”.
A partir dali, silêncio. Nenhuma crítica, nenhum ataque, nenhuma ironia. Nos bastidores, a avaliação é de que o senador aceitou um “cessar-fogo” informal com o Planalto para não inviabilizar de vez qualquer chance de apoio — explícito ou tácito — no Piauí.
Conversas com o PT e cálculo eleitoral
A mudança de postura ganhou contornos mais explícitos em janeiro, quando Ciro se reuniu com o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, e com o presidente nacional do PT, Edinho Silva. Oficialmente, discutiram cenários estaduais. Na prática, o encontro foi lido como tentativa de inserção do senador em uma lógica de composição com o campo governista.
Para o Planalto, o objetivo não é incorporar Ciro, mas neutralizá-lo — e, junto com ele, afastar o PP e o União Brasil do palanque de Flávio Bolsonaro (PL), principal herdeiro do bolsonarismo para 2026.
Trégua frágil e passado mal resolvido
Apesar do recuo público, Ciro mantém fixado em suas redes um vídeo em que acusa o governo de acionar um “gabinete de ódio” contra ele, em meio a investigações da Polícia Federal sobre um esquema de fraude fiscal e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis.
No mesmo período, avançaram apurações envolvendo o Banco Master, de Daniel Vorcaro, apontado como aliado pessoal do senador. O passivo judicial adiciona ruído à tentativa de reaproximação e mantém a relação sob permanente desconfiança.
Federação, chantagem e neutralidade negociada
PP e União Brasil, que juntos controlam 108 deputados e 13 senadores, negociam uma federação partidária ainda pendente de formalização no TSE. O bloco virou peça-chave no xadrez eleitoral e passou a ser disputado tanto pelo governo Lula quanto por Flávio Bolsonaro.
A estratégia dominante é clara: neutralidade nacional em troca de liberdade regional — fórmula que permite negociações simultâneas com lados opostos do espectro político.
Do rompimento à reaproximação calculada
O diálogo com o PT também marca um degelo após o rompimento formal do PP e do União Brasil com o governo federal no ano passado. Desde então, Ciro e Rueda reduziram o tom beligerante, não por adesão, mas por conveniência.
