
Durante anos, o PT e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esbravejaram contra a política de juros altos do então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, acusando-o de sabotar o país e ferir o povo. Era fácil: bolsonarista, inimigo declarado, protegido pela blindagem da autonomia do Banco Central. Mas a história virou ironia.
A “vitória” petista no Banco Central
Agora, quem ocupa há mais de um ano o trono da política monetária é Gabriel Galípolo, um “companheiro” — apadrinhado por Fernando Haddad e avalizado pelo governo Lula. O PT comemorou como quem celebra uma vitória política histórica: finalmente, um dos seus no comando do Banco Central.
A lua de mel durou pouco: o “nosso” virou um estranho
Mais um ano depois, o cenário é de frustração generalizada. A Selic continua sufocante, o discurso técnico do BC não mudou uma vírgula e, para espanto da militância, Galípolo se tornou o principal defensor da proposta que o PT sempre demonizou: a PEC que amplia ainda mais a autonomia financeira do Banco Central.
O que parecia uma vitória virou vexame. O partido que prometeu “retomar o controle” da política monetária agora é obrigado a engolir o fato de que seu próprio indicado defende exatamente o oposto do que sempre pregou.
Um aliado que atropela o governo
O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, criticou duramente a decisão do Banco Central de manter a taxa básica de juros em 15% ao ano e afirmou que a política monetária atual beneficia o sistema financeiro em detrimento da população. Em publicação na rede social X, Boulos declarou que “o Banco Central alimenta a agiotagem ao manter os juros em 15%. O trabalhador perde poder de compra, enquanto o banqueiro ri à toa”. A manifestação ocorre no mesmo dia em que o Comitê de Política Monetária (Copom) sinalizou que deve iniciar o ciclo de queda da Selic apenas a partir de março, mas sem indicar a intensidade do primeiro corte.
A declaração revela mais do que mágoa. Expõe uma desarticulação profunda. Galípolo, ungido pelo governo, atropela a bancada do PT, ignora o diálogo político e rompe com a essência do projeto petista — que sempre defendeu subordinar a política monetária aos interesses sociais e ao desenvolvimento.
O Banco Central segue isolado — com aval do governo
E o que faz o governo Lula? Nada. Assiste passivamente, como se a autonomia do Banco Central fosse uma cláusula pétrea da Constituição.
Para piorar, Galípolo protagonizou um embate público com Fernando Haddad sobre o IOF, evidenciando que a falta de sintonia não se restringe ao PT no Congresso, mas alcança o próprio Ministério da Fazenda.
O Banco Central continua sendo uma ilha — agora comandada por alguém que o PT ajudou a colocar lá. A ironia não poderia ser mais cruel.
O dilema petista: criticar ou se calar
O PT está diante de um dilema clássico — e doloroso. Criticar Galípolo é admitir erro de escolha, ingenuidade ou até cumplicidade. Mas silenciar é ainda pior: significa aceitar uma política monetária que sufoca o crédito, derruba o crescimento e corrói a base popular do governo.
O discurso do “combate aos juros abusivos” morreu. E, se nada for feito, corre o risco de morrer também a narrativa de que, com Lula, “o Brasil voltou”. Não se volta com Selic a 15% crédito travado e um Banco Central cada vez mais blindado.
Galípolo como espelho do impasse lulista
Galípolo não é um traidor. É o espelho perfeito do impasse do lulismo em 2026: como sustentar um discurso de transformação social enquanto se ajoelha, dia após dia, às imposições do sistema financeiro?
O lulismo chegou a um ponto decisivo. Ou assume de vez a incoerência e convive com um Banco Central que contraria seu próprio projeto histórico, ou rompe — comprando uma briga institucional custosa, mas talvez necessária para resgatar alguma coerência política.
