
Uma denúncia acompanhada de diversos documentos extraídos de operações da Polícia Federal (PF) e apresentada ao Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) colocou no centro da disputa pelo Senado um conjunto de acusações envolvendo supostas vantagens econômicas, empréstimos milionários e viagens supostamente custeadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro.
Os elementos apresentados à Justiça incluem laudos da Polícia Federal, mensagens extraídas do celular de Vorcaro, perícias e reportagens que sustentam suspeitas de abuso de poder econômico e apontam intensa articulação política durante a campanha de 2026.
A ação tem como principais investigados o candidato ao Senado Nabor Wanderley (Republicanos) e o Presidente da Câmara dos deputados Hugo Motta (Republicanos), apontado como coordenador da campanha. Também figuram no processo os suplentes da chapa. Segundo a petição, o objetivo é que a Justiça reconheça a existência de abuso do poder econômico, determine a inelegibilidade dos investigados por oito anos e, se houver condenação, casse eventual registro ou diploma eleitoral.
Com mais de 500 páginas, a petição reúne laudos produzidos pela Polícia Federal, mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, documentos periciados, reportagens nacionais e decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF) para sustentar que uma estrutura financeira investigada na Operação Compliance Zero teria produzido reflexos na disputa eleitoral paraibana.
Operação da PF é o eixo central da ação
Grande parte da argumentação está baseada em elementos produzidos na Operação Compliance Zero, investigação conduzida pela Polícia Federal sobre supostas fraudes bilionárias envolvendo operações do Banco Master. Segundo o processo, o celular de Daniel Vorcaro foi apreendido durante a investigação e submetido à extração forense por sistemas utilizados pela Polícia Federal.
A partir desse material, a petição afirma que surgiram registros de conversas, reservas de viagens, contatos políticos e operações financeiras que passaram a integrar o conjunto probatório apresentado à Justiça Eleitoral contra o o candidato ao Senado Nabor Wanderley e o filho deputado federal Hugo Motta.
Os autores da ação, da Coligação Juntos Para a Paraíba Dar o Próximo Passo, sustentam que as provas podem ser utilizadas tanto na esfera criminal quanto na eleitoral, com base no artigo 372 do Código de Processo Civil e em precedentes do TSE e do STF.
Lista manuscrita ganha destaque
Um dos episódios mais explorados na petição envolve um papel manuscrito encontrado durante diligências da Polícia Federal. Segundo o documento judicial, a anotação continha nomes acompanhados de valores numéricos e teria sido localizada durante buscas realizadas na residência do senador Ciro Nogueira (PP) . A petição afirma que investigadores encontraram o documento em circunstâncias que passaram a integrar a investigação conduzida pela Polícia Federal.
Entre os nomes mencionados no material está “Hugo”, acompanhado de um número que, segundo os autores da ação, corresponderia a Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados. A identificação é apresentada pelos autores como parte do conjunto de elementos que, em sua avaliação, relacionaria o parlamentar aos fatos investigados. A denúncia sustenta que esse elemento não deve ser analisado isoladamente, mas em conjunto com as demais provas reunidas no processo.
Um suposto empréstimo de R$ 22 milhões entra na argumentação
Outro ponto de destaque é a referência a um empréstimo de R$ 22 milhões concedido à empresa de uma cunhada de Hugo Motta, Bianca Medeiros, irmã de sua esposa Luana Motta. Ela já foi sócia do palarmentar em outra empresa. Segundo a petição, mensagens extraídas do celular de Vorcaro indicariam que o deputado teria solicitado a liberação do crédito. O documento afirma que a operação financeira foi posteriormente concretizada e passou a ser objeto de pedidos de apuração por órgãos públicos. A ação também menciona reportagens publicadasque trataram do tema e sustenta que o episódio integra o contexto investigado pela Polícia Federal.
Viagens internacionais e encontros privados
A acusação dedica outro capítulo às viagens internacionais atribuídas à relação entre Vorcaro e Hugo Motta. Segundo a petição, mensagens periciadas registrariam reservas de hospedagem em Lisboa, utilização de aeronave particular e organização de encontros privados no exterior. Os autores citam despesas relacionadas ao Hotel Four Seasons, em Portugal, e a um evento realizado no Carnegie Club, em Nova York, cujos valores também aparecem descritos na documentação anexada ao processo. A ação argumenta que esses episódios compõem um padrão de relacionamento que merece exame pela Justiça Eleitoral.
Onda de adesões políticas amplia controvérsia
Além das relatos relacionadas ao Banco Master, a petição dedica um trecho significativo à movimentação política registrada durante a campanha na Paraíba. Segundo os autores da ação, cerca de 180 prefeitos teriam mudado de posição e declarado apoio à candidatura de Nabor Wanderley ao longo do processo eleitoral. De acordo com a argumentação apresentada no processo, essas manifestações de apoio estariam relacionadas a supostas práticas de tráfico de influência e abuso de poder econômico.
A petição reúne reportagens de diferentes veículos da imprensa paraibana para documentar mudanças de apoio envolvendo prefeitos que anteriormente estavam alinhados a outras candidaturas. Entre os prefeitos apontados pelos autores da ação como integrantes do grupo de “vira-folhas” estão os gestores de Piancó, Alagoinha, Santa Cecília e Fagundes, além de outros municípios cujos prefeitos teriam passado a integrar a base política da candidatura investigada.
Fundamentação jurídica cita precedentes do TSE
Na parte jurídica, a petição reúne uma extensa lista de decisões do Tribunal Superior Eleitoral para defender que condutas ocorridas antes do período oficial da campanha também podem ser analisadas em ações de investigação judicial eleitoral quando houver gravidade suficiente.
Os autores argumentam que a jurisprudência da Corte admite o compartilhamento de provas produzidas em investigações criminais e a análise de fatos anteriores ao registro de candidatura, desde que respeitados o contraditório e a ampla defesa. Também são citados precedentes que tratam de abuso de poder econômico, gravidade das condutas e utilização de prova emprestada em processos eleitorais.
O que a ação pede ao TRE
Além do julgamento de mérito, a denúncia solicita medidas cautelares imediatas. Entre elas estão a preservação de dados em plataformas digitais, o compartilhamento formal de documentos que tramitam no Supremo Tribunal Federal, diligências junto à Receita Federal e a requisição de informações financeiras consideradas relevantes para a investigação.
Ao final, os autores pedem que a Justiça Eleitoral reconheça a prática de abuso de poder econômico e captação ilícita de recursos, declare a inelegibilidade de Nabor Wanderley e Hugo Motta pelo prazo de oito anos e determine a cassação de eventual registro ou diploma eleitoral.
Defesa
Hugo Motta e seu pai, Nabor Wanderley, candidato ao Senado, foram procurados por meio da assessoria de comunicação para se manifestarem sobre as denúncias apresentadas. No entanto, até o momento, ambos preferiram não se pronunciar.
O espaço permanece aberto para manifestação, caso Motta ou sua assessoria queiram apresentar esclarecimentos ou informações sobre os fatos.