
Uma ofensiva judicial elevou a tensão da disputa eleitoral na Paraíba (PB). O candidato ao Senado André Avelino de Paiva Gadelha Neto (MDB) ingressou no Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) com uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) que coloca no centro da investigação o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos), e seu pai, Nabor Wanderley (Republicanos) . A ação levanta graves suspeitas de utilização de dinheiro público para fins eleitorais e acusa os investigados de suposta compra de votos por meio do uso de emendas parlamentares e recursos federais como instrumento de articulação política em favor da campanha ao Senado de 2026.
A petição sustenta que recursos públicos foram convertidos em apoio político por meio da aproximação com prefeitos, anúncios de obras e liberação de verbas em municípios estratégicos, configurando, segundo o autor, abuso de poder político e econômico.
O núcleo da acusação
O eixo central da ação é a existência de um suposto "circuito político-familiar" . Segundo a petição, Hugo Motta, na condição de presidente da Câmara, concentraria influência sobre a destinação de recursos federais, enquanto Nabor Wanderley, então prefeito de Patos (Sertão da Paraíba) e posteriormente candidato ao Senado, transformaria essas verbas em ativo eleitoral junto aos municípios paraibanos.
A ação não questiona a legalidade das emendas parlamentares em si, mas afirma que elas teriam sido utilizadas com desvio de finalidade para consolidar comprar alianças políticas e impulsionar as candidaturas dos investigados.
Quase R$ 90 milhões sob escrutínio
A petição reúne dados extraídos do Siga Brasil e de plataformas oficiais do governo federal. Segundo o levantamento apresentado ao TRE: cerca de R$ 14,3 milhões em emendas de Hugo Motta foram destinados a Patos entre 2016 e 2025; entre 2021 e 2026, as chamadas transferências especiais ("emendas Pix") somariam R$ 86,9 milhões autorizados;
aproximadamente R$ 79,8 milhões desse total já teriam sido efetivamente repassados aos municípios beneficiados.
Para o autor da ação, o volume e o momento dos repasses coincidiriam com a construção da candidatura de Nabor Wanderley ao Senado.
Vídeos, prefeitos e promessas de recursos
A petição tenta demonstrar um vínculo entre a liberação de recursos e declarações públicas de apoio político. Entre os episódios citados está um vídeo em que uma prefeita afirma que um caminhão-pipa chegou ao município por articulação direta de Nabor Wanderley, embora ele não exercesse mandato federal na ocasião.
Também são mencionados casos envolvendo municípios como Cacimba de Dentro, Marizópolis e Damião, nos quais prefeitos teriam relacionado o apoio político à atuação de Hugo Motta na obtenção de emendas.
Segundo a acusação, esses episódios evidenciariam uma lógica de "toma lá, dá cá" na distribuição das verbas públicas.
Investigação do STF entra na narrativa
A ação também incorpora elementos da investigação conduzida no Supremo Tribunal Federal na Petição 16.290, relatada pelo ministro Flávio Dino. Esse inquérito apura um suposto esquema de destinação irregular de emendas envolvendo a servidora da Câmara Mariângela Fialek, conhecida como "Tuca", e o ex-deputado Eduardo Cunha.
Embora trate de fatos distintos, o autor da ação sustenta que o caso revelaria um padrão semelhante de funcionamento da estrutura da Presidência da Câmara na gestão de Hugo Motta.
Auditorias do TCU reforçam argumentação
Como parte da fundamentação, a petição reproduz conclusões de auditorias do Tribunal de Contas da União sobre falhas na transparência das transferências especiais. Entre os apontamentos está a ausência de relatório de gestão referente a uma emenda destinada ao município de Patos, além de observações do TCU sobre dificuldades de rastreamento e prestação de contas nesse tipo de repasse.
O que está em jogo
A AIJE pede a preservação de provas digitais e, ao final do processo, a aplicação das sanções previstas na legislação eleitoral, incluindo eventual cassação de registro ou diploma e declaração de inelegibilidade, caso as acusações sejam comprovadas pela Justiça Eleitoral.
O presidente da Câmara, Hugo Motta, e o candidato ao Senado
Nabor Wanderley não foram localizados para comentar o teor da ação até a publicação desta reportagem. O espaço permanece aberto para manifestação dos investigados.