
A primeira viagem de Flávio Bolsonaro (PL) ao Nordeste desde o início oficial da campanha presidencial acendeu um sinal de alerta dentro da própria coordenação do candidato. O que deveria marcar o início de uma ofensiva na região terminou expondo um problema que preocupa aliados: a dificuldade de converter alianças estaduais em palanques efetivos para impulsionar a candidatura ao Planalto.
A estreia ocorreu em Alagoas, estado escolhido estrategicamente por ser a terra natal do candidato a vice, Alfredo Gaspar (PL), e por concentrar um dos melhores desempenhos do bolsonarismo no Nordeste em 2022. Ainda assim, a agenda foi marcada por ausências simbólicas.
O principal nome da oposição estadual, João Henrique Caldas (PSDB), candidato ao governo, não participou dos compromissos de Flávio. Já o candidato ao Senado apoiado pelo PL, Arthur Lira (PP), apareceu apenas em um culto na Assembleia de Deus de Maceió, na noite de terça-feira. Embora ambos tenham dividido o mesmo palco, evitaram uma aparição conjunta lado a lado.Nos bastidores, a avaliação é que o episódio pode se repetir em outros estados nordestinos.
Bahia: ACM Neto mantém distância
Na Bahia, um dos maiores colégios eleitorais do país, a campanha enfrenta um obstáculo de peso. ACM Neto (União Brasil), principal liderança da oposição no estado e candidato ao governo, decidiu apoiar Ronaldo Caiado (PSD) para a Presidência no primeiro turno e evita vincular sua imagem à candidatura de Flávio.
O entendimento firmado prevê uma eventual aproximação apenas em um possível segundo turno, deixando o candidato do PL sem um palanque compartilhado na fase inicial da disputa.
Ceará: aliança sem palanque. O cenário no também é considerado delicado
Embora o PL tenha fechado aliança com Ciro Gomes (PSDB) para a disputa pelo governo estadual, o ex-governador já indicou que não pretende participar diretamente da campanha presidencial de Flávio. Na prática, a composição garante espaço ao partido na chapa estadual, mas não assegura transferência política para o candidato ao Planalto.
Maranhão e Pernambuco ampliam dificuldades
No Maranhão, onde Lula mantém ampla vantagem eleitoral, a campanha segue sem uma liderança estadual capaz de estruturar um palanque competitivo para Flávio.
Em Pernambuco, a situação também preocupa. Raquel Lyra (PSD) desponta como o principal nome apoiado por forças de direita no estado, mas sua presença ainda não se converteu em uma estrutura consolidada de apoio à candidatura presidencial do PL.
Pesquisas revelam tamanho do desafio
Os levantamentos mais recentes ajudam a dimensionar o tamanho do desafio enfrentado pela campanha no Nordeste. Na pesquisa Quaest divulgada neste mês no Rio Grande do Norte, Lula aparece com 56% das intenções de voto no primeiro turno, contra 19% de Flávio Bolsonaro.
Em Pernambuco, levantamento divulgado nesta terça-feira aponta o petista com 54%, enquanto o candidato do PL registra 19%.
Mesmo em Alagoas, considerado um terreno relativamente mais favorável ao bolsonarismo, Lula mantém vantagem: 44% contra 29%.
Paraíba surge como principal aposta regional
Entre os estados nordestinos, a Paraíba é vista como uma das poucas oportunidades para a campanha ampliar presença política. O PL conta com o senador Efraim Filho como candidato ao governo estadual, fator que deve levar Flávio a concentrar parte dos esforços no estado. Ainda assim, aliados reconhecem que a Paraíba, sozinha, dificilmente compensará a desvantagem acumulada no restante da região.
Alagoas foi escolhida por estratégia eleitoral
A agenda em Alagoas começou pela manhã, com a chegada de Flávio ao Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares, seguida por uma carreata de cerca de oito quilômetros e uma reunião com empresários e representantes do setor produtivo.
A escolha do estado não foi casual. Embora Lula tenha vencido Jair Bolsonaro em Alagoas em 2022, Maceió foi a única capital nordestina em que Bolsonaro saiu vitorioso, com 57% dos votos válidos. Além disso, a presença do alagoano Alfredo Gaspar como candidato a vice foi concebida justamente para facilitar a interlocução da chapa com o eleitorado nordestino. O início da campanha, porém, mostrou que a tarefa de transformar esse ativo político em apoio concreto pode ser mais difícil do que o PL projetava.