
Faltando menos de quatro meses para a disputa pelo Governo de Minas Gerais, o governador Mateus Simões (PSD), afilhado político do ex-governador Romeu Zema (Novo), ainda não conseguiu transformar a estrutura do governo em crescimento eleitoral.
Segundo pesquisas divulgadas hoje, Simões permanece distante dos primeiros colocados na corrida sucessória, apesar de ocupar o cargo desde março deste ano e contar com o apoio direto de Zema, reeleito em 2022 ainda no primeiro turno e com ampla vantagem sobre seus adversários.
Zema parece não estar conseguindo "carregar o andor" de seu sucessor político. Embora tenha deixado seu afilhado político, Mateus Simões (PSD), à frente do Governo de Minas desde março, os esforços para aumentar sua visibilidade ainda não se refletiram nas pesquisas eleitorais.
Desde que assumiu o comando do Estado, Simões transferiu simbolicamente a sede do governo para 17 regiões mineiras, anunciou investimentos recordes em saúde, educação e infraestrutura e intensificou sua agenda pelo interior. Apesar disso, permanece com cerca de 3,7% em quinto lugar das intenções de voto nos levantamentos mais recentes.
Mesmo controlando a máquina pública estadual, o herdeiro político de Zema encontra dificuldades para se firmar junto ao eleitorado. O cenário sugere que a força eleitoral do ex-governador pode ser mais pessoal do que transferível.
A dificuldade não aparece apenas na sucessão estadual. Nas pesquisas para a Presidência da República, Zema também não tem conseguido ampliar sua competitividade nacional. Em alguns levantamentos, aparece atrás de nomes com menor estrutura partidária e distante de candidatos mais consolidados, como Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Zema também aparece em quinto lugar nas pesquisas para a Presidência da República, com 2% das intenções de voto, ficando atrás até mesmo de Renan dos Santos 3% (Missão).
O desafio de Mateus Simões reforça uma velha lição da política brasileira: a popularidade de um líder nem sempre é suficiente para eleger seu sucessor. Muitas vezes, o eleitor distingue o padrinho político de seu afilhado e exige que cada candidato construa sua própria identidade e conexão com as urnas.
A situação levanta dúvidas sobre a capacidade de transferência de votos do ex-governador e reforça uma velha máxima da política brasileira: o prestígio eleitoral nem sempre é hereditário.
A lição de Miguel Arraes
O cenário remete a uma conhecida frase do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes: "Não importa quem é o andor, o importante é carregar o santo". A frase foi dita em 1998.
A expressão faz referência à dificuldade de transferir popularidade de um líder para seu sucessor político. Ao longo da história, diversos governadores e presidentes descobriram que a força eleitoral construída ao longo dos anos nem sempre acompanha o candidato escolhido para dar continuidade ao projeto político.
Máquina pública sem conversão em votos
Desde que assumiu o comando do Estado, Mateus Simões intensificou agendas pelo interior mineiro. A transferência simbólica da sede do governo para diferentes regiões, anúncios de investimentos em saúde, educação e infraestrutura, além da presença constante em eventos institucionais, tinham como objetivo ampliar sua visibilidade.
Até o momento, porém, os resultados eleitorais não acompanharam o esforço administrativo
Mesmo dispondo da estrutura do governo estadual, Simões ainda não conseguiu converter a exposição institucional em crescimento consistente junto ao eleitorado.
Construção de identidade ainda indefinida
Outro desafio enfrentado pelo governador é a construção de uma identidade política própria.
Em diferentes momentos, Simões alterna discursos e estilos que lembram lideranças distintas do cenário mineiro. Em algumas ocasiões, busca uma comunicação mais popular e espontânea; em outras, aposta em uma imagem mais técnica e institucional.
Essa oscilação tem dificultado a consolidação de uma marca política clara, elemento considerado fundamental em campanhas majoritárias.
Comunicação e mudanças de estratégia
Nos bastidores políticos, também chamam atenção as frequentes alterações na equipe de comunicação e marketing.
Especialistas costumam avaliar que mudanças constantes de estratégia durante a pré-campanha podem indicar dificuldades na definição de narrativa e posicionamento junto ao eleitorado.
Sem uma mensagem clara e consistente, a tendência é que o candidato tenha mais dificuldade para ampliar seu reconhecimento e consolidar apoio.
Isolamento político preocupa aliados
Além dos desafios eleitorais, o governador enfrenta dificuldades na articulação política.
Nos bastidores, crescem relatos de afastamento de aliados, divergências internas e dificuldades de interlocução com setores importantes da política mineira.
O caso mais emblemático envolve o ex-secretário Marcelo Aro (PP), considerado um dos principais aliados do grupo político de Zema nos últimos anos. Movimentos recentes indicam um distanciamento entre as partes, alimentando especulações sobre possíveis rearranjos políticos para 2026.
Comparação inevitável com Aécio Neves
A comparação com o ex-governador Aécio Neves é recorrente. Durante seus mandatos, Aécio alcançou elevados índices de aprovação e conseguiu eleger seu sucessor, Antonio Anastasia, em 2010. Posteriormente, projetou-se nacionalmente e disputou a Presidência da República em 2014.
Apesar de Mateus Simões contar com o mesmo marqueteiro do ex-governador Aécio Neves, Paulo Vasconcelos, existe uma diferença significativa entre os dois políticos. Enquanto Aécio soube enfrentar adversários e construir uma sólida relação com o eleitorado, alcançando altos índices de popularidade, Simões ainda se envolve em conflitos públicos com aliados e encontra dificuldades para fortalecer sua imagem e crescer nas pesquisas de intenção de voto.
O contraste demonstra que o sucesso eleitoral depende não apenas da estratégia de comunicação, mas também da capacidade do candidato de criar identificação e confiança junto aos eleitores.
No caso de Mateus Simões, o desafio parece ser outro: construir protagonismo próprio e deixar de ser visto apenas como o sucessor escolhido por Romeu Zema.
O teste das urnas
Com a aproximação do calendário eleitoral, a principal incógnita será saber se o governador conseguirá transformar a força administrativa do governo em apoio popular.
Até agora, as pesquisas indicam que a transferência de capital político pretendida pelo grupo governista ainda não se concretizou. Os próximos meses serão decisivos para mostrar se Mateus Simões conseguirá construir uma candidatura competitiva ou se permanecerá à sombra do padrinho político que o levou ao Palácio.
