
A produtora Go Up Entertainment, comandada por Karina Ferreira da Gama, anunciou já ter arrecadado cerca de US$ 13 milhões junto ao banqueiro Daniel Vorcaro para a produção do filme “Dark Horse”, inspirado na história do ex-presidente Jair Bolsonaro. No entanto, enquanto o projeto buscava projeção internacional, os bastidores das filmagens em São Paulo passaram a ser marcados por denúncias graves envolvendo relações de trabalho, atrasos salariais e supostos abusos contra profissionais da produção.
Denúncias se acumulam no sindicato
Cerca de 20 trabalhadores registraram reclamações no Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões no Estado de São Paulo (Sated-SP). Os relatos incluem agressões físicas, assédio moral, revistas íntimas consideradas abusivas, ausência de contratos formais e atrasos recorrentes nos pagamentos das diárias.
Para a direção do sindicato, a empresa responsável pelo filme inicialmente se comprometeu a regularizar os contratos dos profissionais envolvidos nas filmagens, mas posteriormente teria recuado do acordo firmado com a entidade.
A situação se agravou porque muitos trabalhadores atuavam sem qualquer documentação formal exigida pela legislação do setor audiovisual. Para o sindicato, a alegação da produtora de que as contratações eram feitas entre empresas, e não diretamente com pessoas físicas, configura possível tentativa de “pejotização” irregular das relações trabalhistas.
Ministério Público investiga o caso
As denúncias também chegaram ao Ministério Público do Trabalho (MPT), que instaurou inquérito em São Paulo para apurar os relatos de assédio moral e agressões físicas ocorridas durante as gravações.
O caso amplia o desgaste em torno da produção, principalmente porque o filme vinha sendo tratado como um projeto ambicioso e politicamente simbólico. O inquérito agora busca identificar responsabilidades sobre o ambiente de trabalho relatado por atores, figurantes e técnicos.
Bastidores marcados por improviso e desorganização
Profissionais afirmam que havia um “problema generalizado” na organização da figuração do longa. Parte dos contratados sequer possuía experiência artística, e os relatos apontam improviso na condução das filmagens.
Segundo fontes ligadas à produção, Karina Ferreira da Gama não possuía experiência anterior no cinema, o que teria contribuído para falhas logísticas desde as primeiras semanas. De acordo com a Agência Nacional do Cinema (ANCINE), a produtora ligada a Karina Ferreira da Gama obteve registro regular para atuação no setor audiovisual e autorização para captação de recursos em junho de 2025. Cerca de figurantes dividiam sets marcados por descontrole operacional, dificuldades na alimentação, mudanças constantes de cronograma e confusão nos processos de contratação.
Promessas de cachês
Os figurantes recebiam cerca de R$ 100 por diária, mas muitos relatam que o pagamento prometido em até 15 dias nunca ocorreu dentro do prazo informado. Em diversos casos, os profissionais alegam ter recebido respostas ríspidas ao cobrar os valores pendentes.
Também surgiram denúncias sobre descontos de transporte diretamente nos cachês e diferenças de tratamento entre elenco brasileiro e estrangeiro. Enquanto atores internacionais recebiam refeições completas ao longo das gravações, figurantes brasileiros relatam que recebiam apenas kits de lanche mesmo em jornadas superiores a oito horas.
Contradição entre cifras milionárias e precarização
As denúncias expõem um contraste que chama atenção no setor audiovisual: uma produção anunciada com aporte milionário internacional, mas cercada de acusações de precarização das relações de trabalho nos bastidores.
Enquanto o filme buscava consolidar apoio financeiro e político, trabalhadores relatam uma rotina marcada por insegurança jurídica, informalidade e tratamento considerado degradante.
