Em 2005, o então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, fez um alerta que hoje soa menos retórico e mais estratégico. Segundo ele, setores do governo dos Estados Unidos estariam articulando uma operação para associar seu nome e o de seu governo ao narcotráfico. O objetivo seria criar um pretexto político e jurídico para uma eventual intervenção militar — nos moldes do que ocorreu no Panamá, em 1989.
À época, Chávez comandava a Venezuela em rota de colisão com Washington, enquanto George W. Bush ocupava a Casa Branca . O cenário internacional era marcado pela chamada “ guerra ao terror”, que ampliou o uso de narrativas de segurança para justificar ações militares fora do território norte-americano.
O precedente panamenho
Em 20 de dezembro de 1989, milhares de paraquedistas dos Estados Unidos invadiram o Panamá e derrubaram o governo de Manuel Noriega. A ofensiva, batizada de “Operação Justa Causa”, foi apresentada como necessária para combater o narcotráfico e proteger interesses norte-americanos.
Noriega, ironicamente, havia sido colaborador da CIA antes de se tornar um inimigo político de Washington. O saldo da operação foi devastador: estima-se que cerca de 3 mil panamenhos tenham morrido, a maioria civis das regiões mais pobres do país. A narrativa antidrogas serviu como verniz moral para uma intervenção de grandes proporções.
A denúncia de Chávez em vida
Morto em 2013, Hugo Chávez deixou registros públicos de suas preocupações. Em um dos vídeos mais conhecidos, afirmou ter sido alertado por “pessoas sérias e preocupadas” sobre um plano em curso nos Estados Unidos para vinculá-lo diretamente ao narcotráfico.
“Estão procurando a maneira de associar Chávez ao narcotráfico. E depois, qualquer coisa é válida contra um narcotraficante que é presidente” , afirmou. Segundo ele, a estratégia permitiria desde uma captura internacional até uma ação armada, sob o argumento de combate ao crime organizado.
A chamada "fórmula Noriega"
Chávez classificava esse método como a “fórmula Noriega”: primeiro, a construção de um inimigo associado ao narcotráfico; depois, a legitimação de medidas extremas contra esse alvo. Para o ex-presidente venezuelano, tratava-se de um padrão recorrente da política externa dos Estados Unidos.
Em discursos contundentes, ele também lembrava episódios históricos, como os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, para sustentar sua crítica ao que chamava de postura agressiva de Washington diante de governos que desafiam seus interesses.
Da profecia à repetição do roteiro
Anos depois, as acusações lançadas contra Nicolás Maduro seguem um roteiro semelhante. As denúncias envolvem conspiração para o tráfico internacional de drogas, narcoterrorismo e supostas ligações com organizações armadas — exatamente os elementos descritos por Chávez como parte de uma engrenagem política.
Independentemente da avaliação sobre os governos venezuelanos, o padrão chama atenção. A acusação criminal, especialmente ligada ao narcotráfico, tornou-se um instrumento central de deslegitimação política e pressão internacional.
Quando a história insiste em rimar
O alerta de Chávez não deve ser lido apenas como discurso ideológico, mas como análise de um método já aplicado no continente. O caso do Panamá não é uma exceção isolada, mas um precedente incômodo.
A pergunta que permanece não é se governos devem ser investigados ou responsabilizados, mas quem controla a narrativa, quem julga e, sobretudo, quem lucra quando a acusação se transforma em justificativa para a força.