
A tentativa de Carlos Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, de se infiltrar no cenário político de Santa Catarina escancarou, mais uma vez, o esgarçamento interno do bolsonarismo. Ao representar o irmão em um ato público e manipular imagens para inserir o áudio de outra manifestação, o ex-vereador não apenas produziu constrangimento, como revelou o método central que sustenta o clã: a adulteração deliberada da realidade para fabricar apoio e simular unidade.
O episódio não é exceção, mas regra. Incapaz de controlar a cena política como em outros momentos, o bolsonarismo recorre cada vez mais à edição, ao truque e à encenação para manter viva uma imagem de força que já não encontra respaldo nos fatos. Quando a militância precisa ser “corrigida” na pós-produção, o problema não está no público — está no projeto.
A política da encenação permanente
O vídeo editado expõe um padrão recorrente: a substituição do fato bruto por uma narrativa fabricada. A caminhada “Acorda Brasil”, organizada pelo deputado federal por Nikolas Ferreira, tinha dinâmica própria, símbolos específicos e palavras de ordem claras. Ao sobrepor o grito de “volta Bolsonaro”, Carlos não potencializou a mobilização — distorceu seu sentido.
A crítica do ex- secretário de São Paulo Silvio Grimaldo, vinda de dentro do próprio campo ideológico, foi cirúrgica: não se trata de comunicação política, mas de encenação. O problema nunca foi o slogan, e sim o método. Onde falta adesão espontânea, entra a manipulação.
A divisão como estratégia
A candidatura de Carlos Bolsonaro ao Senado por Santa Catarina não agrega; fratura. O incômodo não parte apenas de adversários externos, mas da própria base bolsonarista, que enxerga na movimentação uma imposição artificial, sustentada pelo sobrenome e não por enraizamento político.
O desgaste público provocado por críticas internas revela um bolsonarismo que já não opera como bloco coeso, mas como um campo em disputa permanente, atravessado por vaidades, ressentimentos e projetos concorrentes.
Um movimento sem centro
Enquanto Carlos atua no front da manipulação digital, Flávio Bolsonaro observa à distância. De Israel, em busca de capital político internacional ao lado de Eduardo, o senador limitou-se a um aceno protocolar ao ato de Nikolas. O gesto calculado diz muito: apoiar sem se comprometer, marcar presença sem assumir o desgaste.
A postura contrasta com a retórica de unidade constantemente evocada pelo clã — e sistematicamente desmentida pela prática.
A guerra doméstica da direita
As resistências à candidatura do “01” atravessam o próprio núcleo familiar e religioso do bolsonarismo. Michelle Bolsonaro, em aliança com o pastor Silas Malafaia, atua como polo de contenção interna, disputando influência, protagonismo e o controle da herança política de Jair Bolsonaro.
O resultado é um campo fragmentado, onde a lealdade ao líder já não basta para impor silêncio ou disciplina.
O limite do sobrenome
O episódio catarinense expõe um bolsonarismo em declínio organizativo: menos mobilização real, mais disputa de bastidores; menos espontaneidade, mais controle narrativo. A tentativa de impor unidade pela edição de vídeos revela justamente o oposto — a perda de controle político.
O sobrenome Bolsonaro ainda convoca, mas já não organiza. E quando a política precisa ser remontada na pós-produção, a imagem falha não é um erro técnico — é o reflexo fiel de uma realidade que o movimento insiste em negar.
